A tática de 1966 que classificou a Seleção Brasileira para Copa do Mundo de 2018
- Thiago Henrique
- 27 de abr. de 2017
- 6 min de leitura
Esquema tático utilizado pela Inglaterra campeã do mundo se tornou a fórmula do sucesso de Tite no comando do Brasil

(Foto: Divulgação)
Muitos brasileiros celebraram a demissão de Dunga do comando da seleção brasileira, e comemoraram ainda mais, quando Adenor Bachi – ou caso prefira chama-lo pelo nome de guerra: Tite -, assumiu os trabalhos técnicos da agremiação. O nome do treinador já era um pedido da crítica, dos torcedores, e até de alguns jogadores que atuavam no Brasil. No entanto, o trabalho apresentado pelo treinador não é novo quanto se imagina.
Tite retornou ao cenário do futebol quando assumiu o Corinthians em 2013 e, no comando da equipe paulista, conquistou vários títulos com o clube, como a Libertadores da América, o Campeonato Nacional, e o Mundial de Clubes. No alvinegro, o treinador utilizava o esquema tático 4-1-4-1, em que apenas um volante se posicionava a frente da linha defensiva, enquanto quatro meio-campistas tentavam munir o centroavante fixo na entrada da grande área.
Provavelmente você deve ouvir corriqueiramente diversos jornalistas afirmarem as mais malucas combinações numéricas, desde 3-5-2 até o 4-1-4-1 citado acima.
Pois bem, estas combinações podem ser esquecidas a partir de agora, afinal, o que realmente importa, é o posicionamento do jogador dentro de campo, conforme explica o ex-auxiliar-técnico de Tite e hoje colunista do portal ESPN.com, Renato Rodrigues. “O esquema (4-1-4-1) ele nada mais é, que uma referência posicional para os jogadores. O mais importante de um esquema tático são as ações com e sem bola. O que esse time vai fazer quando ele perde a bola? Vai pressionar imediatamente ou vão retornar todos para trás da linha da bola?”, ressalta.
Na década de 60, o esquema tático “da moda” utilizado por diversas equipes e seleções era o 4-3-3. A Inglaterra campeã do mundo em 1966, por exemplo, ficou conhecida no planeta bola devido a sua insistida (e repetida) jogada, o qual alçava a bola na área para uma possível testada de um atacante grandalhão. Entretanto, Alf Ramsey, treinador da equipe na ocasião, antes de inundar sua equipe com diversos “chuveirinhos”, testou vários esquemas, até encontrar aquele que julgou ideal para a sua equipe.
Em sua partida de estreia na Copa do Mundo de 1966 – que futuramente levantaria o caneco –, contra o Uruguai, Ramsey entrou em campo com quatro jogadores que formavam a linha defensiva da equipe, um volante a frente dos zagueiros-centrais, dois meio-campistas ofensivos, e três jogadores considerados atacantes. A “formação numérica” desta equipe era o 4-3-3.
Naquele jogo, a Inglaterra entrou em campo com Banks; Cohen, J. Charlton, B. Moore, Wilson; Stiles, Ball, B. Charlton; Connelly, Greaves e Hunt. No livro “As melhores seleções estrangeiras de todos os tempos”, Mauro Beting, jornalista e autor do livro exemplifica como a seleção inglesa atuava em campo. Mesmo que naquela época não havia a regra do impedimento, os defensores atuavam em linha, enquanto Stiles permanecia como um fixo a frente dos zagueiros, sem a menor vergonha de destruir a jogada (de forma leal ou não). Ball e Bobby Charlton ficavam encarregados de criar as jogadas ofensivas para o trio de frente.
Mas, de acordo com Mauro Beting, a seleção inglesa abusava do poder físico que possuía – situação muito comum no futebol praticado atualmente. “A Inglaterra corria demais. Tinha excelente preparo físico. Mas não sabia o momento de parar a bola, pensar no jogo. Com Stiles na cabeça da área e ótima movimentação dos meias Ball e Bobby Charlton, a troca constante de lado dos ponteiros John Connelly e Jimmy Greaves atrapalhava o sólido sistema defensivo uruguaio”, escreveu o jornalista.
Porém o segredo do até então esquema protótipo de Alf Ramsey para manter a sua equipe firme e forte em campo, era justamente nos ajustes defensivos, mais especificamente na movimentação dos pontas. Quando a Inglaterra não tinha a bola, os dois jogadores movimentavam-se para trás. Assim, Greaves e Connelly formavam uma linha no meio-campo com quatro jogadores.

Em 1966, a Inglaterra, treinada por Alf Ramsey, entrou em campo com uma
movimentação diferente da habitual (Arte: Thiago Henrique)
Como é utilizada atualmente?
Tite passou a utilizar a tática a partir de 2015, quando o Corinthians sagrou-se campeão nacional naquele ano. A equipe base era composta por Cássio; Fagner, Gil, Felipe, F. Santos; Ralf, Elias, Renato Augusto, Jadson, Malcom; Vagner Love. De acordo com o ex-jogador e também comentarista esportivo, Caio Ribeiro, o treinador aprimorou a movimentação dos jogadores dentro de campo, adaptando as características dos jogadores brasileiros às táticas utilizadas no futebol europeu.
Um dos “upgrades” feitos por Tite aconteceu nas jogadas laterais. O lado direito era um das principais armas do Corinthians até então, já que, devido à capacidade que Jadson - meio-campista pelo lado direito da equipa - tinha de abrir espaço para esta faixa do campo. “O Jadson é muito bom na movimentação diagonal, e com isso, abre espaço para que Fagner chegue até a linha de fundo adversária”, argumenta o comentarista Caio Ribeiro. Na Inglaterra Bobby Charlton e Ball faziam a dupla no meio-campo, Renato Augusto e Elias eram os jogadores que auxiliavam os atacantes no time brasileiro.

Quando era atacada, pontas da seleção inglesa realizavam movimentação para trás,
formando tática que consagrou Tite no Corinthians, e na Seleção Brasileira (Arte: Thiago Henrique)

Com a implementação da tática, Neymar e Philippe Coutinho passaram a ter funções
táticas pré-estabelecidas, diferente dos tempos de Dunga no comando da seleção (Arte: Thiago Henrique)
Qual a diferença entre as épocas?
A diferença, é que a tática passou a ser utilizada com jogadores de características opostas ao sistema precursor. Ball era um jogador de habilidade, com vocação ofensiva, enquanto que, Elias, um volante, foi posicionado para a segunda linha de meio-campistas, como principal “desafogo” da equipe. Afinal, Elias era considerado um elemento surpresa durante os jogos, pois todos os marcadores voltavam as suas atenções para jogadores reconhecidamente com características ofensivas. Neste posicionamento, a equipe fica numericamente mais ofensiva, pois, além do volante, conta com mais cinco jogadores para tentar o arremate ao gol. Já os restantes jogadores de linha, permaneciam recuados para garantir que não sofram gols em contra-ataque.
Agora no comando da seleção brasileira, Tite manteve o recurso tático que o alçou ao posto mais alto do futebol brasileiro. Mas para que tal tática funcione com sucesso, o técnico tem como “adendo” nas opções ofensivas, as triangulações.
De uma maneira prática, utilizando a atual escalação da seleção brasileira como exemplo, pense caro leitor, em um lance de ataque pelo lado direito contra Argentina na final da Copa do Mundo de 2018 (cujo Brasil já está classificado e os Hermanos ainda não).
Com os jogadores mais próximos, o próprio treinador afirmou em entrevista ao programa Esporte Espetacular, que a tática utilizada – em conjunto com o posicionamento dos jogadores em triângulos – evita que a defesa dê chutões sem direção. Este método faz com que os jogadores tenham mais opções de passe, já que toda a equipe permanece em um espaço de 30 metros, tornando difícil de o adversário penetrar a defesa. A imagem abaixo mostra como é um suposto ataque pelo lado-direito da seleção brasileira.

Com este posicionamento, os jogadores da seleção brasileira passaram a jogar em um espaço menor e, consequentemente, a ficar mais próximos uns dos outros, facilitando a troca de passes (Arte: Thiago Henrique)
A imagem mostra que no lance, o lateral do lado oposto fica mais próximo aos zagueiros e ao goleiro, para que não leve um contragolpe em suas costas. O lateral-direito avança, tornando-se opção para a jogada ofensiva, enquanto o meio-campista aberto do lado esquerdo entra na grande área para contribuir com o atacante fixo. O último meio-campista ofensivo se posiciona na intermediária, para um eventual rebote – chamado por Tite de “reboteiro” – além de cumprir a função defensiva de preencher o espaço, impedindo que o adversário faça um contra-ataque. Além de ter o goleiro avançando um pouco a entrada da sua própria área, para ser também uma opção de um possível passe e uma “sobra de segurança” (função anteriormente exercida por um zagueiro, porém, com isso, a equipe ganha em vantagem numérica, já que possui uma espécie de goleiro-linha).
Na Inglaterra de 1966 as triangulações não ocorriam devido à característica de seus ponteiros. Tanto Connelly como Greaves eram conhecidos pela sua velocidade, logo, Alf Ramsey armou o seu time para que os meio-campistas driblassem ou conduzissem a bola até uma das laterais do campo para acionar os ponteiros. Restava a dupla inglesa duas opções, cruzar a bola ou cruzar a bola. A diferença é o lance anterior ao cruzamento. Os jogadores tentavam chegar a linha de fundo e cruzar na segunda trave, ou em situações complicadas, cruzavam de onde estivessem. Se a jogada não desse certo, a expectativa era que o rebote ficasse com um jogador inglês para tentar um chute de longa distância.
O único ponto inquestionável entre as equipes é a solidez defensiva. Com ambas as táticas, são quatro jogadores de linha que se posicionam no setor defensivo para impedir os avanços do adversário. Isso mostra que, as estratégias estão disponíveis, cabe ao melhor profissional do futebol saber como usá-las.