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Oitenta Minutos

  • Gabriel Reinehr
  • 1 de nov. de 2018
  • 5 min de leitura

Foto: Divulgação Internet


Eu cheguei no bar onde iria assistir ao jogo convicto de que, ao escrever sobre River Plate contra Grêmio, contaria uma história vitoriosa. O cheiro de fumaça de cigarro e cerveja ainda era sutil, mas existente. Em uma mesa no centro do bar (que vou chamar assim apesar de não ser EXATAMENTE um) já estava Samuca. Logo mais juntar-se-ia a nós Jão. E claro, uma infinitude de outros bípedes que, como nós, estavam ansiosos por ver algum argentino quebrar a perna em aproximadamente 7 lugares. Samuca levanta a questão: Salada é comida? Puta merda, tá chegando uma galera esquisita. Mas é tudo pelo Grêmio, dia de garantir mais uma final! Quando me dou conta, já ligaram o projetor. E eu juro pelo que você quiser, alguém jogou alguma coisa no Marcelo Grohe e nos preparadores dele que fez todos parecerem o Freddie Mercury prateado. Samuca, sempre deveras culto, nos presenteia com seus conhecimentos: “vocês sabiam que o Boca Juniors usa aquelas cores por causa de um navio da Suécia?”. Não, eu não sabia. Nesse momento os times começam a entrar em campo e a transmissão mostra a torcida gremista na Arena. Caralho, que coisa linda. Vamo Vamo Meu Grêmio!

O jogo começa e mais uma vez Samuca nos brinda com o fato, embora este fosse óbvio, de que o Ramiro estava parecendo um mini-craque. Mas a genialidade está em perceber as coisas óbvias, dizem. Jão quase engasga com a cerveja. Calma meu rapaz, nem saíram no soco ainda. Noto que a torcida no bar está estranhamente quieta. A banda local está em Porto Alegre, me dizem. Mas aos 7 minutos de partida alguém devidamente ébrio inicia a cantoria: QUEREMOS A COPA! Segue o jogo com a defesa do Grêmio inteira anulando o ataque argentino. Cada corte é um urro monumental das pessoas. À mesa, o destaque é para Bruno Cortez. O bicho tá enfezado; certeza que tem promoção de Bibsfirra hoje. Um tal de Palacios (diminuição proposital do seu valor aqui) chuta do meio do campo e acha que vai fazer gol. AQUI TEM GOLEIRO MEU CONSAGRADO! Mais uma vez Alisson inicia um contra-ataque e quase faz o gol. Tá com sangue no olho esse daí. E NÃO É QUE UM ABENÇOADO QUALQUER ARRANJOU UM TAROL! MEU DEUS, BATUCA ISSO DAÍ QUE AGORA VAI! VAMOS VAMOS TRICOLOR!

Mas agora o River Plate começou a se organizar um pouco melhor. Mais uma vez, trocam passes na entrada da área e finalizam. Devem ter uma paixão secreta pela gaveta direita do Grohe, só pode. Junto com essa organização começa o Festival de Faltas, patrocinado pelo corno do Galhardo que nem devia olhar para o time, mas está falando com o substituto por um walkie-talkie. A Conmebol é uma várzea. Destaque para torcida local, que por vezes fez seu diminuto número quadruplicar. HOJE EU VIM TE APOIAR!

Olha só, até parece que o jogo acal… CORRE ALISSON PASSA POR ESSE ARGENTINO VOCÊ CONSEGUE CRUZA PRO JAEL CARALHO! Agora é certeza: Cortez cheirou o tempero das esfirras. Mas temos um escanteio. Ah, não acredito, bateu no zagueiro e espirrou para fora da área. Mas OLHA SÓ O LÉO GOMES! GOL GOL GOL! CACETADA! SEGUROU R1 E O ESSE MALUCO! Conforme eu grito, somos todos banhados por uma chuva de cerveja que imediatamente nos torna molhados e grudentos. Mas quem se importa? Jão pula mais alto que todo mundo e logo depois me abraça. Vamos pulando e gritando e abraçando quem mais conseguimos. Samuca está do outro lado da mesa, mas a gente se estica. Lá fora, alguém estoura um rojão. Nada mais justo, quero mais. “É muito bom comemorar gol”, Jão. Frase cunhada ao acalmarem-se os ânimos, respirar fundo e aliviar-se com a carteira ainda estando no bolso.

Falando sério, Cícero muito mal no jogo. Parece que está com terçol, não vê nada nem ninguém. Vou reclamar disso quando dou um passo para trás e piso no pé de uma guria. Segundo tempo começa e logo machucam o Grohe. Os argentinos não são tão simpáticos quanto a garota que aceitou minhas desculpas. Ergo a voz para proferir xingamentos veementes contra os argentinos. Algumas pessoas próximas concluem que estou falando mal do nosso goleiro! Reitero a todos ali presentes que nenhum de nós possui envergadura moral suficiente para ousar questionar nosso amado guarda-redes. Logo em seguida, Everton entra em campo. Por Deus, achei que iam derrubar o telhado do lugar. E não é para menos, pois não demorou para que o Cebolinha chamasse uns três argentinos para dançar; e era quem guiava. Porém, esse mesmo semideus do futebol perde um gol inacreditável, onde era só levantar a bola para tirar do goleiro. Porém, à frente do zagueiro, ele mandou no peito de Armani, e a bola não entrou. A partir daí o jogo virou um pesadelo.

Paulo Miranda, que diga-se de passagem, fez um papel FENOMENAL substituíndo Kannemann, estira um músculo da perna após cortar uma bola. Em seu lugar, Portaluppi manda Bressan a campo. “Por favor, só não estraga tudo, alemão…”, é o pensamento geral da nação gremista. No seu primeiro lance, um escanteio, nosso zagueiro da Serra começa a ser empurrado por 2 argertinos. Resultado: cartão amarelo para todos, inclusive para o nosso até então injustiçado, Bressan. Um tempo depois, numa falta, a bola vai para dentro da pequena área e sobra para Borré cabecear. Mas fica a polêmica no ar: pela televisão, fica parecendo que ele ajeitou a bola com a mão. Ah, Conmebol…

Mas o jogo recomeça e tudo ainda parece OK. Estamos na vantagem e o River Plate não parece que vai avançar mais do que isso. Quando de repente, após um escanteio, o árbitro para o jogo. Não estou nem entendendo. O que aconteceu? Depois de uma eternidade, o uruguaio sai da tela do VAR, aponta a marca do pênalti, e dá o segundo amarelo para o Bressan. O bar explode. Garrafas são quebradas, pessoas vão embora e, quando o gol argentino se concretiza, lágrimas correm. Isso é mais do que um resultado adverso, é inacreditável. É como saber que ganhou a Mega-Sena e perder o bilhete. O que ele queria ver no VAR afinal? Começou olhando um lance do cabeceio e terminou olhando o Bressan. O que estava procurando? E nisso tudo, o Gallardo falando no walkie-talkie…

Quando o árbitro apontou o centro do campo estávamos todos anestesiados e incrédulos. Não era possível aquilo estar acontecendo. Jão foi buscar alguma coisa e eu e Samuca éramos puro xingamento. Contra o árbitro, a Conmebol, o Bressan e a Argentina. Tentamos esquecer com algumas risadas e mais um gol de cerveja. Parece até estar mais amarga. Eu saio em direção à minha casa, cabisbaixo e sem voz. Queria escrever uma crônica vitoriosa. E por 80 minutos, foi.


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